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Opinião: Turbinados por algoritmos, radicais do PL assumem comissões estratégicas na Câmara Federal

*Por Tatiana Dias

Eu escrevi nesta semana no Twitter: o PL deixou de ser o centrão fisiológico. Agora é a extrema direita fisiológica mesmo. E as figuras mais proeminentes deixam de ser apenas influencers estridentes e passam a acumular poder real em áreas críticas.

As escolhas de Nikolas Ferreira para a Comissão de Educação da Câmara e de Caroline de Toni para a Comissão de Constituição e Justiça, ambos da ala mais bolsonarista do PL, mostram que o radicalismo de extrema direita não é só vitrine ou puxa votos: também é estratégico.

Vamos relembrar: Ferreira foi o deputado mais votado do país em 2022. Fez carreira surfando em pautas morais, como o lamentável episódio em que expôs uma adolescente transexual de 14 anos. No fim do ano passado, foi condenado por transfobia por atacar a deputada mineira Duda Salabert, do PDT.

Cresceu à base de brigas, que vão de Felipe Neto a André Janones, e hoje, além do salário como deputado, também faz um bico de influenciador: monetiza seu Instagram, que tem 10,4 milhões de seguidores.

Já Caroline de Toni também teve uma votação expressiva em seu segundo mandato: foi a mais votada de Santa Catarina. Entre seus projetos de lei estão incluir Olavo de Carvalho como “Herói da Pátria” e acabar com a imunização obrigatória de “vacinas sem eficácia”.

A lista do PL no comando ainda inclui as comissões de Esporte, de Segurança Pública e de Previdência, Assistência Social, Infância, Adolescência e Família.

Claro que há uma confluência de fatores políticos e sociais que explicam a ascensão política dessas figuras extremistas. A eleição de Donald Trump, e Bolsonaro aqui no Brasil, não têm uma única causa, e seria simplista demais atribuir esse fenômeno apenas à comunicação e redes sociais.

Não dá para ignorar, no entanto, o papel das plataformas na projeção desses personagens.

Vivemos na era da economia da atenção. No mar de informações, o tempo que dedicamos a determinados conteúdos é valioso. As redes sociais sabem disso, e criam sistematicamente artifícios e soluções engenhosas para direcionar e prender nossa atenção.

Já explicamos que conteúdos que geram raiva estão entre os que mais engajam – e uma vez que interagimos e prestamos atenção neles, a tendência é que sejamos bombardeados com essa informação. Do lado de quem produz, o efeito é claro: raiva e polêmica dão resultado. E engajamento, além de audiência, é dinheiro.

Quem fatura com a monetização, que pode ser com doações diretas da audiência e com anúncios, não é só o influenciador – mas as próprias redes sociais, que racham o lucro com quem cria conteúdo. Assim, se um perfil bomba – ainda que à base de ódio – elas ganham também. Isso não é nenhuma novidade: a gente vem falando disso aqui no Intercept há muito tempo, como nesse texto aqui, de 2018, e a reportagem, de 2019, na qual mostramos como o Google treinou blogueiros antipetistas para faturar com anúncios.

É por isso mesmo que é chocante: não aprendemos nada.

Não há regulação de redes sociais que dê conta. Corresponsabilizar plataformas por conteúdos criminosos, como prevê o PL 2630, o das fake news, é importante sim, mas enquanto esse tipo de conteúdo mentiroso, polêmico, de ódio seguir sendo premiado com audiência e engajamento, figuras desse tipo seguirão surgindo e explodindo.

É só olhar, por exemplo, para o fenômeno de policiais youtubers, que usam a rotina na corporação para produzir conteúdo monetizado. Há policiais, inclusive, que tiram muito mais dinheiro como influenciadores do que como agentes. Os batalhões fingem que não vêem. Plataformas lucram com violência. Nada acontece. Feijoada.

É verdade que o milionário ecossistema de informação da direita sofreu vários reveses nos últimos anos. Contas derrubadas, desmonetização. Mas nada disso é solução:  só paliativo, porque a arquitetura do sistema de redes sociais é pensada para premiar esse tipo de conteúdo, enquanto transforma as pessoas em zumbis rolando seus feeds.

É o modelo de negócio, coleta de dados e otimização algorítmica para prender atenção e vender anúncios com base em engajamento, o coração do problema. E não há solução que não passe por articulação internacional, por regulações não apenas na camada de conteúdo, mas também antitruste que limite o poder econômico das plataformas, por exemplo. Embora esse tipo de medida já esteja em discussão, não há no horizonte um mísero sinal de que, em um futuro próximo, as plataformas que engoliram a internet vão mudar a forma como funcionam.

Quem sabe navegar nesse mar de gritaria é, no fim, quem grita mais. E, embora muita gente goste de minimizar essas figuras estridentes, que sabem capitalizar nas redes sociais, a escolha da presidência das comissões mostrou que o poder não é só virtual. O poder acumulado nas plataformas se converte para capital político.

As plataformas, aqui, ganham duplamente: têm figuras que geram lucro e, ao mesmo tempo, representam seus interesses nas esferas decisórias do país. Já deveríamos ter aprendido a tragédia que isso representa há muito tempo.

 

 

Editora Geral do The Intercet Brasil*

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Cinara Marques

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